domingo, 11 de maio de 2008

Enterro de Excelência II

HOJE - James

Enterro de Excelência I

HOJE - Linda Martini

quarta-feira, 7 de maio de 2008

A lição


Faz hoje uma semana que Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, visitou a nossa escola, a convite de uma professora de Português de quem é amigo pessoal.

Fernando Ribeiro surge sereno, senta-se tranquilamente olhando a audiência de dezenas de miúdos à espera que dissesse as coisas mais extraodinárias que pensariam ouvir alguma vez no recinto escolar. À sua frente tem uma garrafa de água que confessa ser a bebida predilecta durante o dia, e refere o quão indispensável ela é para a saúde da sua garganta.

Fernando Ribeiro começa a falar, diz as coisas acertadas para um homem da sua geração e modo de vida que leva: quem idolatra, quem gosta de ouvir e ler, fala de Parménides e da pena que sente por já não se estudarem os filósofos pré-socráticos, fala de Kant e Nietzsche, e diz que a profissão com que sonhava era a profissão docente. Que era um rebelde estudioso, que todos sejam rebeldes estudiosos. Que estudou filosofia, mas que o estilo de vida que levava não os deixava dedicar-se o suficiente.

Fernando Ribeiro defende que os telemóveis sejam deixados à porta da sala de aula numa "bolsa dos valores", lê o primeiro poema que escreveu na folha amarrotada onde o escreveu originalmente e que o acompanha nas apresentações dos seus livros de poesia.

No início um grupo de alunos faz uma encenação de um dos seus poemas, um jogo de sombras, uma voz que se ouve, outra que quase não se ouve.

No fim, Fernando Ribeiro faz a ante-ante-estreia do novo videoclip dos Moonspell.


A tudo isto os alunos assistem serenos e sem ripostar. Estivemos naquela sala durante 2 horas.

O homem não disse nada de extraordinário. Simplesmente demonstrou ser culto, saber do que faz, entender imensamente de música e comprender perfeitamente "quem ouve estilos de música diferente e quem ouve metal e depois começa a ouvir transe".


Se houve alguma lição que Fernando Ribeiro deu, foi a da tolerância, a da serenidade, e a da necessidade de originalidade e vontade de ser diferente em detrimento da mera cópia de modelos.


Os mesmos alunos que fizeram o teatrinho inicial foram os mesmo que ouvi na fila atrás da minha chamarem filhos da puta aos que, "como Fernando Ribeiro disse", mudam de um dia para o outro de metal para transe.


terça-feira, 6 de maio de 2008

Fokyo

Hoje consegui o feito de dar a minha pior aula de sempre. Nada de preocupante, não estivesse o estágio à beira do final e esta ser uma das últimas aulas, o que, na eventualidade de se concretizar a teoria do "o mais recente é o que fica memorizado", é mau sinal para mim.
O que há de melhor depois de uma aula deste tipo é ter uma aula com o 9º ano, em que não somos nós a dá-la, mas estamos somente a assistir. Diverti-me imenso, e senti, por várias vezes, vontade de me sentar numa das mesas deles, e ser natural e irresponsável e despreocupado como eles. Tive inveja dos meus alunos, e tive inveja de não ter sido eu a notar que uma aluna escreveu Fokyo em vez de Tokyo no quadro, e tenho inveja de não ter sido eu a fazer piadas com a palavra. Ser um aluno de 9º ano seria a melhor Fokyo-attitude que eu poderia mostrar contra esta pressão toda que o estágio nos impõe. Depois da aula péssima que dei, e, apesar de nenhum dos alunos do 9º ano o saber, fui apenas mais um deles naquela aula, gozando o estatuto privilegiado no meu silêncio de professor observador.

domingo, 27 de abril de 2008

"Filha de duas mães"

Apesar de não ser um grupo que me chamasse a atenção até agora, tenho que reconhecer que este primeiro single do novo álbum d'A Naifa me ficou no ouvido desde a primeira vez em que o ouvi.
Um raio de luz na música portuguesa quando a tendência parece ser idolatrar artistas portugueses que cantam em Inglês sempre as mesmas rimas pré-feitas para as quais já não há paciência: "Come with me/I'm gonna set you free"; "Up and down/I'm gonna hit the ground". (Rita Redshoes, BAZA!!) E parem de tratar a língua inglesa como recurso ÚNICO para adornar melodiazinhas, usando-a quando bem vos apetece só para debitar merdas sem conteúdo nenhum, sob uma capa de modernice provinciana, de que está dotado muito do que é feito em Portugal nos últimos anos e que é adorado somente por ser em língua inglesa.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dia Mundial do Livro


O livro que estou a ler é “O idiota”, de Dostoiévsky. Confesso que nunca tinha conseguido ler nenhuma obra do autor, porque desistia sempre ao fim das primeiras páginas, parecendo-me ser demasiados nomes russos em catadupa para memorizar e associar a um enredo que ia nascendo através da escrita detalhada, realista, contra a qual, ainda por cima, se insurgia o meu preconceito parido pela leitura de Eça, cujas obras, a partir de um determinado momento, se me afiguravam como uma espécie de fofoca next door em forma literária.
Há uns dias atrás lá tomei a decisão de pegar num livro do autor russo, e começar a lê-lo, sem pretensões de chegar ao fim mas sem deixar que o preconceito anti-escrita realista prevalecesse.
As 600 e tal páginas são, seguramente, um desafio. O último romance destas dimensões que terei lido foi com certeza alguma obra do Eça. A diferença é que Dostoiévsky não é chato. E por chato entendo o seguinte: descrições enormes de lugares, pessoas ou acções, que lemos como se nos apetecesse mesmo ler, só porque sabemos que são fruto de uma corrente literária que assim o defendia; isto é, lemos Eça artificialmente, conscientemente desculpando as infinitas descrições porque sabemos que é realista.
O que mais me está a fascinar n’O Idiota é a facilidade com que podemos seguir a narrativa, parando quando bem nos apetecer, já que os capítulos são surpreendentemente curtos (10 a 15 páginas cada um). As personagens de nome russo são fáceis de memorizar, apesar de serem muitas, exactamente pela particularidade de serem russos, logo desconhecidos, e, inconscientemente, associamos, por exemplo, Nastássia Filíppovna a uma cara, e Ívan Fiódorovitch Epantchin a outra. Seria pior se tivéssemos à nossa frente um romance desta extensão e com tantas personagens, e cujos nomes fossem Manuela, Maria ou João.
Outra característica da escrita de Dostoiévsky é a fina ironia, e a densidade e veracidade dos diálogos entre as personagens. Não há, por assim dizer, conversa mole. Não há momentos mortos, suaves, puramente destinados à transição entre partes ou mudança de lugares de acção. Não. Os diálogos são brutos, frios, demasiado imperfeitos para serem realistas. É esta imperfeição, existente nas entrelinhas, no que não é dito, nos “apartes”, por assim dizer, que o autor vai introduzindo, que conferem um certo deleite adolescente à leitura deste romance.
Uma leitura leve, tranquila, relaxada. Uma boa forma de ler alguma coisa mais chegada à terra, sem grandes pensamentos metafísicos, abstraccionismos exigentes, ou pretensões filosóficas transcendentais, mas que também não é supérflua ou estupidificante.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Manu Chao - Me Llaman Calle

Porque a vida devia ser sempre tão leve e despreocupada como uma canção latina.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Elogio às ceifeiras


“Las ideas no duran mucho, hay que hacer algo con ellas”
(Santiago Ramón y Cajal, médico espanhol)

Saio de casa. As pedras de granizo esbarram-se contra o pára-brisas, e reparo nos rios de água a correr pela minha rua abaixo. Penso ‘estou atrasado que merda de tempo que pouca disposição para ir para a escola’.
O caminho é feito com dificuldade. Há meteoritos de gelo a cair no meu pára-brisas e a sair centésimas de segundo depois disparados pelo limpa-pára-brisas. Penso ‘que confortável ter que fazer o meu caminho diário a 20 km/h como que protegido por um cobertor de partículas geladas que tipo uma atmosfera me protegem embora eu esteja perfeitamente imune à sua temperatura visto ir tranquilamente dentro do meu carro (atrasado) a ouvir o meu cd que toca toca toca e eu não me farto de o ouvir embora fosse mais lógico prestar atenção ao que os locutores da rádio dizem sobre os distritos em alerta laranja no dia de hoje’.
Vejo a estação de comboios à minha esquerda, e em 5 segundos a chuva já não existe, nem o granizo, nem o dilúvio. Seria uma nuvem.
Chego à escola. Os parques de estacionamento fora do recinto escolar estão cheios de carros, talvez de professores, talvez de alunos (muitos também têm), talvez de gente que veio visitar a feira (fazer compras com partículas de gelo a cair-nos em cima tem que ser uma experiência alucinante).
Entro com o carro na escola pela primeira vez e chego atrasado.
A sala dos professores é confortável. Penso ‘e se os alunos tivessem uma sala dos alunos que fariam dela será que a usavam? será que era injusto era mimá-los? era ser escola facilitista pouco dada à demonstração de autoridade?’
Estão à minha espera. Começamos a labuta.
Depois de uma luta incansável para terminar a tarefa proposta, fico finalmente livre. Há que trabalhar mais, mas a disposição não deixa. Converso. Almoço.
A tarde começa, e o tempo não está melhor. Penso ‘vou ver o meu mail olha lá estão os profs a falar sobre a ministra o acordo o estatuto as injustiças o que a X disse o que a Y pensa’, abro jornais portugueses, vou ver a parte do cinema, e vejo que não há filmes que me interessem. Penso ‘vou ver um jornal alemão já não vejo há muito tempo olha um artigo sobre Zapatero feminista’. Leio e o autor do artigo pergunta “que se passa no sul?”, já que na Itália temos um crente na força intelectual masculina e em Espanha (país berço do conceito de “machismo”) um crente na força intelectual feminina. Penso ‘e Portugal aqui onde fica se o autor falasse no nosso país que diria? ou se calhar não diria nada não há nada para dizer deste país está aqui como poderia não estar e os profs continuam a falar do estatuto’. Junta-se entretanto uma equipa expressiva de aficionados da temática o-novo-estatuto-é-uma-grandessíssima-bosta-e-esta-ministra-não-caiu-porque-isso-acontecendo-o governo-caía-junto-com-ela, e já não me consigo concentrar na leitura do artigo sobre Zapatero feminista, porque está em alemão, língua exigente no que diz respeito à concentração durante a leitura.
Saio, atravesso a multidão que parla, e vou assistir à aula de uma colega.
Durante a aula, atravessam-me pensamentos infindáveis sobre a actividade docente, e penso que é uma profissão fascinante. Salvaguardo aqui a minha opinião de que o adjectivo “fascinante” tem muito mais que se lhe diga do que simplesmente “derivado do nome (ou substantivo, em versão pré-TLEBS) 'fascínio'", já que um fascínio pode ser uma coisa boa ou má. Os feitiços são uma forma de fazer com que as pessoas fiquem fascinadas por determinada coisa. E a partir deste pensamento sacado da manga, a discussão pode seguir variadíssimas direcções, se pensarmos tão-somente no amor, feitiço mais do que evidente, e que pode ser considerado bom ou mau. Depende da disposição, e a minha hoje está como a do tempo. Se falar nisto, dispararei, qual limpa-pára-brisas, partículas de mau humor que podem gelar alguém.
No fim da aula, penso ‘tenho vontade de escrever não sei exactamente o quê mas é preciso aproveitar estes momentos como dizia aquele homem que a mulher espanhola citou no congresso las ideas no duran mucho hay que hacer algo con ellas por falar nisso tenho que ver quem foi’. Ao chegar a casa reparo que Ramón y Cajal, autor da frase, não foi um escritor, mas sim um médico e histologista espanhol (e vou ver o que faz exactamente um histologista e aprendo que estuda os tecidos biológicos, a sua estrutura, formação e função).
Penso ‘que cena mais Virginia Woolf pôr-me a escrever o meu dia será que ela pensava nestas cenas claro que não alta estupidez ela era génio demais para isso para ter razões tão altamente pequenas para escrever’, e utilizo a palavra génio numa conversa virtual com um que eu conheço, e chego aqui a este ponto em que tudo me parece incrivelmente absurdo e em que a existência se me desenha difícil, ridícula e grande demais para se poder escrevinhar sequer uma ínfima parte dela num texto notoriamente ficcional, pelas palavras que escolhi, seleccionei e pensei, em vez daquelas que poderia ter escolhido, seleccionado e pensado.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008

Lhasa

de cara a la pared